Artigo

Controle de Qualidade da Geléia Real: Parâmetros Físico-químicos

Ligia Bicudo de Almeida-Muradian
Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP
Av. Prof. Lineu Prestes, 580, Bloco 14, CEP 05508-900, São Paulo, SP, Brasil
E-mail: [email protected]

Introdução:

Os produtos apícolas têm sido utilizados pelo homem desde a Antigüidade, como complemento alimentar e para manter a saúde. Dentre os produtos apícolas mais consumidos, podemos destacar o mel, própolis, geléia real e pólen.

A Geléia Real é uma substância secretada pelas glândulas hipofaríngeas das abelhas possuindo coloração branca e/ou amarelada. Sua composição é complexa, incluindo proteínas, aminoácidos, ácidos orgânicos, esteróides, fenóis, açúcares, minerais, etc. (KRELL, 1996, WIESE, 2000, GARCIA-AMOEDO e ALMEIDA-MURADIAN, 2003; NAGAI et al. 2003, NAGAI, INOUE, 2004, ALMEIDA-MURADIAN e PENTEADO, 2007). O 10-HDA (ácido 10-hidróxi-2-decenóico), principal componente da fração lipídica é considerado o mais importante princípio ativo da geléia real sendo usado como indicador de qualidade e frescor da geléia real. O 10-HDA também pode auxiliar na comprovação da autenticidade do produto (BLOODWORTH et. al., 1995; GARCIA-AMOEDO, ALMEIDA-MURADIAN, 2003; KOSHIO, ALMEIDA-MURADIAN, 2003; PAMPLONA et al., 2004, ALMEIDA-MURADIAN e PENTEADO, 2007).

A Fórmula química do 10-hda é a seguinte:

A geléia real para humanos tem sido usada como complemento nutricional e está sempre relacionada ao bem-estar das pessoas, auxiliando no desempenho físico e intelectual, na diminuição do "stress", suplementação de vitaminas e minerais (KRELL, 1996; GARCIA-AMOEDO, 1999; PRESOTO, RIOS, ALMEIDA-MURADIAN, 2004, ALMEIDA-MURADIAN e PENTEADO, 2007).

Por ser um produto perecível, com sabor adstringente e alto valor comercial, a geléia real, é encontrada no mercado congelada, liofilizada e muitas vezes adicionada ao mel em concentrações que variam de 0,2% a 0,5% (PAMPLONA et. al., 2004, ALMEIDA-MURADIAN e PENTEADO, 2007).

A geléia real é comercializada sob inspeção do Ministério da Agricultura (SIF) e seu Regulamento Técnico de Identidade e Qualidade encontra-se na Instrução Normativa nº 3, de 19 de janeiro de 2001. (BRASIL, 2001). Neste regulamento estão descritas as análises de controle de qualidade deste produto e seus limites (umidade, cinzas, proteínas, açúcares redutores, lipídeos totais, pH, índice de acidez, sacarose e 10-HDA), no entanto não são mencionados quais os métodos devem ser empregados para estas análises.

A legislação Brasileira divide o produto em: Geléia real fresca e liofilizada (BRASIL, 2001). Classifica ainda com segundo o seu processo de obtenção como Geléia real fresca (produto coletado por processo mecânico a partir da célula real, retirada a larva e filtrada) e Geléia real "in natura" (produto mantido e comercializado diretamente na célula real após a remoção da larva) (BRASIL, 2001, ALMEIDA-MURADIAN e PENTEADO, 2007).

Análises físico-químicas indicadas para a geléia real

As análises físico-químicas utilizadas para o controle de qualidade da geléia real, indicadas pela legislação brasileira (BRASIL, 2001) e os métodos de análise citados na literatura estão apresentados na Tabela 1.


* incluindo:

- Ácido hidroxitransdecenóico: 1,2 a 2,5 % (m/m) base seca;

- Ácido hidroxintransdecenodióico: 1,2 a 5,0 % (m/m) base seca;

- Ácido cetotransdecenóico: 2,6 a 5,0 % (m/m) base seca.

Fonte: BRASIL, 2001, ALMEIDA-MURADIAN e PENTEADO, 2007

Para a determinação de umidade, depois de comparar cinco métodos distintos (estufa a vácuo a 60º e a 70º C, estufa convencional à 105º C, dessecador com ácido sulfúrico e secagem sob infravermelho), GARCIA-AMOEDO e ALMEIDA-MURADIAN (2002), concluíram que os melhores eram o que utiliza dessecador com ácido sulfúrico e o da secagem sob infravermelho.
No caso da análise de cinzas tem-se um consenso no uso da incineração em mufla a 550ºC (SAKUMA et al., 2005, p.105; GARCIA-AMOEDO, 1999, ALMEIDA-MURADIAN e PENTEADO, 2007).

Na determinação de proteínas, o mais tradicional é a de análise de nitrogênio pelo método de Micro Kjeldahl, utilizando-se o fator de conversão de 6,25 para transformação de nitrogênio total, em proteínas (SAKUMA et al., 2005, p. 123; GARCIA-AMOEDO, 1999, ALMEIDA-MURADIAN e PENTEADO, 2007).

No caso dos açúcares, a legislação brasileira (BRASIL, 2001) cita os redutores e sacarose. Para esse fim, geralmente se utiliza a titulometria com solução de Fehling (SAKUMA et al., 2005, p. 126, 127; CODEX ALIMENTARIUS, 2001), sendo que este método não é muito específico aos açúcares individuais. Um método mais sensível é a cromatografia líquida de alta eficiência (CLAE ou HPLC) que separa os principais açúcares presentes (Sesta, 2006, ALMEIDA-MURADIAN e PENTEADO, 2007).

Os lipídeos totais geralmente são analisados com o auxílio do extrator intermitente de Soxhlet utilizando-se o éter etílico como solvente (SAKUMA et al., 2005, p. 117; GARCIA-AMOEDO, 1999, ALMEIDA-MURADIAN e PENTEADO, 2007).

O método recomendado pela legislação vigente (BRASIL, 2001) para a análise do teor de 10-HDA em geléia real utiliza a cromatografia líquida de alta eficiência, em fase reversa com eluição isocrática conforme descrito por GARCIA-AMOEDO (1999). Outros autores têm utilizado esta mesma metodologia para a análise da geléia real pura ou ainda para a identificação da sua presença em outros produtos (BLOODWORTH et. al., 1995; GARCIA-AMOEDO, ALMEIDA-MURADIAN, 2003; KOSHIO e ALMEIDA-MURADIAN, 2003, PAMPLONA et al., 2004). As condições cromatográficas utilizadas são: sistema isocrático, coluna. C18-H de fase-reversa, injetor automático, detector de arranjos de foto-diodos ajustado a 225nm, fase móvel composta de metanol/água (45/55) com pH=2,5 ajustado com ácido fosfórico, a-naftol como padrão interno e tempo de corrida de 30 min (GARCIA-AMOEDO, ALMEIDA-MURADIAN, 2003).

Referências Bibliográficas:

ALMEIDA-MURADIAN, L.B., PENTEADO, M.D.V.C. Vigilância sanitária: tópicos sobre legislação e análise de alimentos. Editora Guanabara, 2007, 203 p.

BLOODWORTH, BC., HARN, C.S., HOCK, C.T., BOON, Y.O. Liquid chromatographic determination of trans-10-hydroxy-2-decenoic acid content of commercial products containing royal jelly. J. AOAC Int., Washington, v.78, n.4, p.1019-1023, 1995.

BRASIL, Instrução Normativa n.3, de 19 de janeiro de 2001. Regulamentos Técnicos de Identidade e Qualidade de apitoxina, cera de abelha, geléia real, geléia real liofilizada, pólen apícola, própolis e extrato de própolis. Diário Oficial da União, Brasília, 23 de jan. de 2001. Seção 1 p.18-23.

GARCIA-AMOEDO, L. H., ALMEIDA-MURADIAN, L. B. Comparação de metodologias para a determinação de umidade em geléia real. Química Nova. São Paulo, vol. 25, n.4, p.676 - 679, 2002.

GARCIA-AMOEDO, L.H.; ALMEIDA-MURADIAN, L.B. Determination trans 10-hidroxy-2-decenoic acid (10-HDA) in brazilian royal jelly from São Paulo State, Bazil. Ciên. Tecnol. Aliment. v.23, p.62-65, 2003.

Garcia-Amoedo, L.H. Geléia Real: Análises físico-químicas úteis para a caracterização e detecção da autenticidade ou adulteração do produto. 1999 69p. (Dissertação de Mestrado - Faculdade de Ciências Farmacêuticas - USP).

KOSHIO, S.; ALMEIDA-MURADIAN, L.B. Aplicação da CLAE para determinação do ácido 10 hidróxi-2-decenóico (10-HDA) em geéia real pura e adicionada a mel brasileiro. Quim. Nova, São Paulo, v.25, n.5, p.670-673, 2003.

KRELL, R. Pollen In: KRELL, R. Value-added products from beekeeping. Roma, FAO Fiat Panis, 1996, cap.3, p.87-115 (FAO Agricultural Services Bulletin, 124).

Nagai, T., Inoue, R. Preparation and the functional properties of water extract and alkaline extract of royal jelly. Food Chem, v.84, p.181-186, 2004.

SAKUMA, A.M., KIRA, C.S., FLORA, C. CANO, C.B., MARSIGLIA, D.A.P., CARVALHO, M.F.H., MELLO, M.R.P.A, GARBELOTTI, M.L., CARUSO, M.S.F., PASCUET, N.S., ZENEBON, O., RODRIGUES, R.S.M., PIMENTEL, S.A. colab. Procedimentos e determinações gerais. In: INSTITUTO ADOLFO LUTZ. Métodos físico-químicos para análise de alimentos. 4. ed. Brasília: ANVISA, 2005. cap. 4, p 83-158.

WIESE,H. Apicultura - novos tempos. Guaíba: Livraria e editora agropecuária, 2000. 421 p.

Agradecimentos:

A autora agradece o CNPq, a FAPESP, todos os apicultores que forneceram amostras para as pesquisas e aos alunos Luis Henrique Garcia Amoedo, Shinnosuke Koshio, Lucila Pamplona, Karla Oliveira e Ricardo Azedo.

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