Artigo

Variação temporal na produção de mel pela abelha Jandaíra: manejo a longo prazo revela seu potencial como espécie comercial no Nordeste brasileiro

Sheina Koffler, Cristiano Menezes, Paulo Roberto Menezes, Astrid de Matos Peixoto Kleinert, Vera Lucia Imperatriz-Fonseca, Nathaniel Pope & Rodolfo Jaffé
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Introdução.

A criação de abelhas nativas sem ferrão (ou meliponicultura) é uma atividade com grande potencial para diferentes fins, como: conservação da diversidade de espécies nativas; desenvolvimento econômico sustentável; provimento de serviços ecossistêmicos, como polinização; e preservação da herança cultural, em locais em que a meliponicultura é realizada de forma tradicional. Apesar dos avanços recentes, nos países em desenvolvimento, a falta de técnicas ou de padronização de procedimentos entre meliponicultores ainda dificulta o desenvolvimento da atividade, principalmente em comparação com a já bem estabelecida apicultura. Assim, uma melhor compreensão do efeito das técnicas de manejo sobre a produção de mel e de colônias, os principais produtos da meliponicultura, é essencial para o fortalecimento dessa atividade.

No Brasil, a região Nordeste é um importante centro da meliponicultura. Uma das principais abelhas sem ferrão criadas nessa região é a Jandaíra (Melipona subnitida), uma espécie que produz um mel muito apreciado e em grande quantidade (Figura 1). Um ator central no desenvolvimento e disseminação das técnicas de manejo e na conservação da abelha Jandaíra foi o Monsenhor Huberto Bruening, que viveu em Mossoró (RN). Em 1960, Monsenhor Bruening recebeu seu primeiro ninho de Jandaíra e dali em diante passou a ser um grande observador, pesquisador e promotor da criação dessa espécie e sua conservação. Incomodado com as técnicas rudimentares utilizadas, ele desenvolveu e testou diferentes técnicas para garantir um melhor manejo e produção de mel: "Ao presenciar eu aquela maneira rústica e sebosa de extrair mel por essas bandas, acendeu-se em mim o desejo de eu mesmo presidir ou fazer. Como não temos manual sobre o assunto, fui interrogando a um e outro, observando, e fabriquei um cortiço de umburana, "o pau de abeia". Juntei teoria com prática, que é o método da Legião de Maria." (Bruening 2006). Um de seus discípulos, Sr. Paulo Roberto Menezes, hoje é um importante produtor de mel de Jandaíra no Nordeste, além de atuar divulgando técnicas de manejo adequadas e a importância de sua preservação. Durante 10 anos, Sr. Paulo registrou meticulosamente a produção de mel e o manejo em suas colônias. Analisando esse rico conjunto de dados, avaliamos o efeito a longo prazo do manejo e do clima na produção de mel e a sobrevivência das colônias de Jandaíra. A seguir, relatamos o desenvolvimento do trabalho e nossos principais resultados, como forma de contribuição para o fortalecimento da meliponicultura. O trabalho foi publicado recentemente como um artigo científico no Journal of Economic Entomology (Koffler et al., 2015).

Metodologia.

De 1999 a 2008, Sr. Paulo Menezes acompanhou 155 de suas colônias de Jandaíra no Meliponário Monsenhor Huberto Bruening, em Mossoró, Rio Grande do Norte (Figura 2). Essa região semi-árida é dominada pela Caatinga e caracterizada por altas temperaturas e chuvas irregulares, sendo que a sazonalidade marcada determina as práticas de manejo ao longo do ano. As chuvas ocorrem de novembro a abril, correspondendo à época de maior abundância de recursos florais explorados pelas abelhas. Durante a época chuvosa, as colônias crescem e têm bastante alimento disponível, permitindo a divisão dos ninhos para multiplicação das colônias e a colheita de mel. Na época da seca, as colônias recebem uma alimentação de subsistência, que consiste em 250 ml de xarope de açúcar (50%) a cada 15 dias, utilizando-se alimentadores externos em cada colônia. Essa alimentação auxilia a manutenção das colônias e é interrompida com o início das chuvas, quando as abelhas coletam néctar e produzem mel. Portanto, o fornecimento de alimento não resulta na produção de mel de xarope. Por 10 anos, Sr. Paulo registrou a quantidade de mel produzida por cada colônia, se a colônia morreu ou se foi dividida. Além disso, a partir de 2008, passou a fornecer alimento às suas colônias. Esse registro é o mais longo e detalhado que conhecemos até o momento para uma abelha sem ferrão. Com esses dados em mãos, mais os dados anuais de temperatura e precipitação (INMET, 2014), analisamos quais práticas de manejo e clima afetam a produção de mel e a sobrevivência das colônias de Jandaíra. Para a produção de mel, avaliamos: 1) se a colônia produz mel ou não produz, e 2) se a quantidade de mel produzida é afetada (para mais detalhes, consultar o artigo original).

Resultados e Discussão.

Em média, cada colônia produziu 430 ml de mel por ano, sendo que o volume máximo colhido foi de 1,8 litro. Somando a produção de todas as colônias, foi possível obter até 60,9 litros de mel por ano. Porém, houve um ano em que a produção de mel foi nula (2001). A ausência de mel nesses casos pode ter acontecido por falta de recursos florais ou porque as colônias estariam muito fracas, consumindo todo mel produzido, sem formar estoques. Abaixo, serão descritos os resultados para cada fator analisado na pesquisa (Tabela 1).

Variação da produção de mel no tempo: Ao longo dos dez anos, a probabilidade de haver algum mel nas colônias aumentou, o que pode ser relacionado ao melhor estabelecimento das colônias após sua fundação ou chegada ao meliponário e também à idade da colônia. Porém, a quantidade de mel produzido em cada colônia diminuiu ao longo do tempo. Isso sugere um efeito da divisão das colônias maiores e mais fortes, que nunca chegariam a produzir muito mel, pois nesse ponto seriam divididas (ver abaixo).

Divisão da colônia: A divisão da colônia não influenciou se a colônia produziria mel ou não, mas afetou a quantidade de mel produzido no ano da divisão. Colônias divididas produziram em média 19% menos mel do que colônias não divididas. Isso pode estar relacionado à diminuição da população da colônia após a divisão, já que no processo, são removidos de 50 a 70% dos favos de cria para formar o novo núcleo, resultando em um menor número de abelhas forrageiras (que irão coletar néctar para produzir o mel). Apesar desse efeito negativo, a divisão de colônias aumenta o número de colônias no meliponário, o que pode ser uma vantagem para a produção de mel a médio prazo.

Alimentação de subsistência na estação seca: O fornecimento de xarope de açúcar aumentou a produção de mel, sendo que no ano em que foram alimentadas, as colônias produziram em média 37% mais mel que nos anos sem alimentação. É importante ressaltar que o mel produzido não foi proveniente do xarope oferecido. A alimentação ajuda a fortalecer a colônia durante a seca e dessa forma ela produz mais mel durante a floração no período chuvoso.

Fatores climáticos: A temperatura afetou negativamente a produção de mel, sendo que em anos mais quentes, menos colônias produziram mel e a produção de mel nas colônias foi menor. Além disso, em anos com menor precipitação, menos colônias produziram mel. Assim, em anos mais quentes e secos, a oferta de flores na Caatinga deve ser menor, o que por sua vez afeta a produção de mel por colônias de Jandaíra. Isso é preocupante, pois com o aumento previsto nas temperaturas globais, a meliponicultura no Nordeste poderia ser comprometida. Por outro lado, a mortalidade das colônias não foi afetada pela temperatura ou pela precipitação, confirmando a grande resistência da abelha Jandaíra ao ambiente semi-árido da Caatinga (Maia-Silva et al., 2015). Assim, outros fatores (como falta de recursos, manejo intenso, ataque de parasitas ou doenças) podem estar relacionados com a mortalidade das colônias.

Com esses resultados, sugerimos algumas recomendações aos meliponicultores:

Para aumentar a produção de mel em um ano, é recomendável evitar divisões das colônias e fornecer alimentação de subsistência nas épocas menos favoráveis. Além disso, sugerimos localizar as colônias próximas a áreas com recursos florais abundantes ou mesmo plantar espécies nativas que forneçam recursos para as abelhas (para sugestões na Caatinga, consultar Maia-Silva et al., 2012).

Para aumentar o número de colônias, recomenda-se investir na divisão das colônias mais fortes, tendo precaução para não afetar a sobrevivência das colônias divididas. A alimentação de subsistência também pode ser importante para otimizar o processo de divisão, fortalecendo as colônias.

É importante identificar as colônias com nomes ou números e manter um caderno para registro das práticas de manejo realizadas em cada colônia. Essas anotações fornecem informações sobre como melhorar o manejo das colônias, além de permitir a seleção das melhores colônias para divisão (mais fortes e com maior produção de mel). O nosso trabalho não teria sido possível sem essas anotações.

Referências bibliográficas.

Bruening, H. 2006. Abelha Jandaíra, 3 ed. SEBRAE/RN, Natal, RN.

INMET- Instituto Nacional de Metereologia. 2014. Brasília, DF. (acesso em 16 de março de 2015).

Koffler, S.; Menezes, C.; Menezes, P.; Kleinert, A. M. P.; Imperatriz-Fonseca, V. L.; Pope, N. & Jaffé, R. 2015. Temporal Variation in Honey Production by the Stingless Bee Melipona subnitida (Hymenoptera: Apidae): Long Term Management Reveals its Potential as a Commercial Species in Northeastern Brazil. Journal of Economic Entomology, volume 108 (n.3), p. 858-867.

Maia-Silva, C.; Silva, C. I.; Hrncir, M.; Queiroz, R. T.; Imperatriz-Fonseca, V. L. 2012. Guia de plantas visitadas por abelhas na Caatinga. Editora Fundação Brasil Cidadão, Fortaleza, CE. (disponível em: < http://www.mma.gov.br/estruturas/203/_arquivos/livro_203.pdf>).

Maia-Silva C., Hrncir M., da Silva C., Imperatriz-Fonseca V. 2015. Survival strategies of stingless bees (Melipona subnitida) in an unpredictable environment, the Brazilian tropical dry forest. Apidologie.

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