Artigo

Locais de Nidificação das Abelhas Nativas sem Ferrão (Hymenoptera, Apidae, Meliponinae) do Parque Municipal do Bacaba, Nova Xavantina - MT.

Sidnei Mateus1, Uender C. Rodrigues Pereira2, Helena S. R, Cabette2, Ronaldo Zucchi1

1Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Ribeirão Preto - USP, Departamento de Biologia, e-mail: [email protected]
2Universidade do Estado de Mato Grosso, Campus Universitário de Nova Xavantina, Departamento de Ciências Biológicas.

RESUMO

Os ninhos de abelhas sem ferrão foram amostrados no Parque Municipal do Bacaba, localizado no Campus Universitário da UNEMAT (Universidade do Estado do Mato Grosso), município de Nova Xavantina, Estado de Mato Grosso. A vegetação local é composta por cerrado com as fitofisionomias de cerradão, vereda e mata de galeria. Neste estudo foram selecionadas uma área urbanizada (13,7 ha) e uma com vegetação natural, cerrado e cerradão (26,3 ha). O objetivo do trabalho foi de obter informações dos substratos utilizados pelas abelhas para a construção de seus ninhos. A área foi percorrida e acompanhada de outubro de 2003 a setembro de 2004. Foram localizados 145 ninhos de 20 espécies de meliponíneos distribuídos em 12 gêneros: Celetrigona, Frieseomelitta, Lestrimelitta, Oxytrigona, Partamona, Plebeia, Scaptotrigona, Scaura, Tetragona, Tetragonisca, Trigona e Trigonisca. As abelhas construíram seus ninhos em 17 espécies vegetais, mas também foram encontrados ninhos em termiteiros arbóreos e terrestres, alicerces, paredes, postes de madeira, canos de aterramento da rede elétrica, ninhos subterrâneos e ninhos aéreos e expostos. Apesar da ação antrópica nas áreas de estudos, constatou-se alta diversidade e abundância de ninhos de meliponíneos, provavelmente pela disponibilidade de nichos e recursos alimentares.

INTRODUÇÃO

As abelhas sem ferrão (Meliponinae) têm ocorrências restritas a áreas tropicais e subtropicais do planeta (MICHENER 1974) e são representadas por algumas centenas de espécies e distribuídas em aproximadamente 60 gêneros existentes. Aproximadamente 75% destas espécies vivem na região Neotropical (MICHENER 2000; ROUBIK 2006). Com exceção de algumas espécies do gênero Trigona que coletam exclusivamente proteína animal, as abelhas são consideradas os polinizadores mais efetivos por utilizarem uma dieta alimentar basicamente composta por produtos florais (MATEUS & NOLL 2004). O papel ecológico das abelhas é fundamental na manutenção da biodiversidade de espécies vegetais. Durante suas visitas às flores, ocorre a transferência do pólen de uma flor para outra, promovendo a polinização cruzada (SANTOS 2002). No Brasil estas abelhas são encontradas em todos os ecossistemas, são eficientes na polinização de plantas nativas colaborando de forma efetiva na produção de frutos e sementes (MATEUS 1998). Dependendo do ecossistema, estas abelhas são responsáveis por 40 a 90% da polinização das plantas nativas. As restantes, 60 a 10%, são polinizadas pelas abelhas solitárias, borboletas, coleópteros, morcegos, aves, alguns mamíferos, água, vento, e, recentemente, pelas abelhas africanizadas (KERR et al., 1996).

Os meliponíneos durante um longo período de evolução foram gradualmente ocupando nichos ecológicos existentes em seu ambiente. Os ninhos são construídos em ocos de árvores vivas, de árvores secas, postes de cerca, frestas em parede de alvenaria, alicerces e dentro de ninhos de outros insetos sociais como vespas, formigas e cupins. Algumas espécies constroem ninhos aéreos e expostos e outras fazem ninhos subterrâneos ocupando cavidades preexistentes no solo. As colônias são perenes podendo viver vários anos em um mesmo local (MATEUS & ZUCCHI 2008). Ainda são pouco conhecidas as espécies de meliponíneos existentes nos diferentes ecossistemas, devido aos escassos estudos realizados. Assim, este estudo vem contribuir para o conhecimento das espécies de abelhas nativas sem ferrão e seus substratos de nidificação no Estado do Mato Grosso, onde, até o presente momento, não houve nenhum estudo de levantamento de ninhos de abelhas sem ferrão.

MATERIAL E MÉTODOS

O levantamento dos ninhos foi realizado de novembro de 2003 a outubro de 2004, no Parque Municipal do Bacaba, localizado no Campus Universitário da UNEMAT (Universidade do Estado do Mato Grosso). Situado no perímetro urbano do município de Nova Xavantina (MT), o Parque Municipal do Bacaba (14º41'S;52º 20' W) ocupa uma antiga base da Força Aérea Brasileira (448,47 ha) e parte de uma área de domínio público, onde se localiza a cabeceira do Riacho Bacaba (40,55 ha), somando em área total 489,02 hectares. A vegetação predominante na região é o cerrado, nas suas formações de cerradão, mata de galeria, cerrado sentido restrito e vereda (ROSSETE & IVANAUSKAS 2001). A área foi dividida em duas porções principais: a área interna (urbanizada) do Campus, com 13,7 ha e uma área natural de cerrado, com 26,3 ha. A metodologia de localização e acompanhamento dos ninhos fundamentou-se no trabalho realizado por MATEUS (1998).

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Foram localizados 145 ninhos de meliponíneos, pertencentes a 12 gêneros e 20 espécies. Na área urbanizada do Parque Municipal do Bacaba foram encontrados 111 ninhos, correspondentes a 12 gêneros e 18 espécies. Na área de cerrado foram localizados 34 ninhos representados por sete gêneros e 12 espécies (Tab. 1). Todos os ninhos encontrados são pertencentes à tribo Trigonini, sendo que o mesmo aconteceu com os trabalhos de TAURA & LAROCA (1991), PINHEIRO-MACHADO & KLEINERT (1993), FREITAS (2001) e SOUSA et al. (2002). O gênero Trigona foi o que apresentou maior número de espécies, seis nas duas áreas com uma proporção de 30% do total, seguido por Frieseomelitta com três espécies correspondendo a 15% do total e Partamona com duas espécies, 10% do total. Todos os outros gêneros estiveram representados por apenas uma espécie, 5% do total (Tab. 1). A área urbanizada foi a que apresentou maior diversidade de espécies. O gênero Trigona foi o mais abundante, seguido por Frieseomelitta e por Partamona, sendo que os demais gêneros foram representados por apenas uma espécie. Na área de cerrado, quatro espécies de Trigona foram encontradas, seguidos por Frieseomelitta com três espécies e os demais gêneros com apenas uma espécie (Tab. 1).


As espécies F. silvestrii e F. varia nidificaram principalmente em postes de madeira e canos de aterramento e Plebeia sp. nidificou preferencialmente em postes. T. recursa utilizou como substratos para nidificação termiteiros terrestres e cavidades preexistentes. P. vicina nidificou principalmente em termiteiros arbóreos, P. ailyae utilizou termiteiros terrestres e C. longicornis nidificou em galhos de árvores, canos e postes. As espécies Frieseomelitta sp., L. limao, O. tataira, S. longula, Trigona sp., T. grupo fuscipennis, T. pallens, T. spinipes, e T. aff. fuscipennis foram pouco abundantes (de um a três ninhos) e nidificaram somente em árvores vivas. Scaptotrigona postica e Tetragona. clavipes foram abundantes, 15 e 13 ninhos, respectivamente, e nidificou somente em troncos e galhos de árvores, o que mostra suas preferências por estes tipos de substratos.

Na área urbanizada as abelhas nidificaram principalmente em árvores (47,74%), postes de madeira (31,53%) e canos de aterramento (11,71%) e cupinzeiro arbóreo (0,9%). Na área de cerrado, as nidificações ocorreram principalmente em árvores (61,76%) e em canos (14,71%). Postes e cupinzeiros arbóreos tiveram mesma incidência (8,82%) e o menos utilizado foi termiteiro terrestre (5,88%). As abelhas utilizaram 17 espécies vegetais para nidificação. Buchenavia tomentosa (mirindiba) foi a espécie vegetal que teve maior número de ninhos, bem como maior variedade de espécies de abelhas. C. longicornis, F. silvestrii, F. varia, Plebeia sp., S. postica, T. clavipes, T. nataliae utilizaram os galhos e o tronco de B. tomentosa para nidificar, enquanto P. ailyae e T. pallens nidificaram na base do tronco associado a termiteiros. Salvertia convallariaeodora foi utilizada como substrato por C. longicornis, F. silvestrii, Plebeia sp., S. postica, T. clavipes e T. nataliae. As espécies T. clavipes, S. postica e C. longicornis também nidificaram em Caryocar brasiliensis. As espécies Tetragonisca angustula, T. clavipes e S. postica utilizaram Terminalia argentea para construir seus ninhos. Nidificaram em Aspidosmperma macrocarpum as espécies S. longula e C. longicornis. Dipteryx alata foi utilzada por T. clavipes e T. pallens. As demais espécies vegetais (Andira cuiabensis, Eriotheca gracilipes, Ficus sp., Luehea paniculata, Mezilarus crassiramea, Platypodium elegans, Pterodon pubescens, Qualea parviflora, Strychnos pseudoquina e Vatairea macrocarpa) foram utilizadas pelas espécies de abelhas mais abundantes na área de estudos. A distribuição dos ninhos nas duas áreas pode ser considerada ao acaso, entretanto, na área urbanizada formaram-se pequenos agregados em algumas árvores antigas, como foi o caso de T. nataliae, que teve 42,86% dos seus ninhos em galhos de uma mesma árvore (B. tomentosa) e de F. silvestrii, que foi a segunda espécie mais abundante dessa área e teve um terço (33,33%) de seus ninhos em um único poste. A agregação de ninhos possivelmente está vinculada à disponibilidade de locais para a nidificação e de recursos, outro fator que possivelmente leva à agregação dos ninhos é a distância de migração de cada espécie para a fundação de novos ninhos, fato este desconhecido que requer investigação. Espécies como F. varia e F. silvestrii apresentaram ocorrência nas duas áreas e nidificaram principalmente em canos de aterramento. C. longicornis, Plebeia sp. e T. angustula também nidificaram neste substrato. Plebeia sp. ocorreu também em paredes, P. ailyae teve 50% dos seus ninhos neste tipo de substrato associados a termiteiros. Esses dados indicam que estas espécies estão sendo beneficiadas com as modificações ambientais decorrente da urbanização. F. silvestrii e F. varia mostram que algumas abelhas conseguem ter uma maior flexibilidade para adaptarem-se a novos ambientes.

CONCLUSÕES

A maior ocorrência dos ninhos na área com maior ação antrópica (urbanizada) e o fato de algumas espécies nidificarem preferencialmente em canos de aterramento, postes de madeira e moirões, mostra a adaptação destas espécies a ambientes antropizados. A falta de árvores com troncos grossos, com possibilidade de haver oco, força algumas espécies a procurarem novos nichos. A disponibilidade de recursos encontrados na área urbanizada, tais como água de torneiras, bebedouros, flores e frutos cultivadas, é provavelmente um dos fatores que contribuem para alta densidade de ninhos. A baixa diversidade de ninhos na área de cerrado pode estar ligada à falta de locais para nidificação. O interior da área, atualmente em regeneração, sofreu forte ação antrópica no passado, foram abundantes os ninhos subterrâneos e em cupinzeiros arbóreos, bem como ninho aéreo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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